26 de setembro de 2013

Os mitos da meritocracia e da brasilidade a serviço dos privilégios no Brasil

senso comumO senso comum é uma faca de dois gumes. Ele é importante no nosso dia a dia, para criar os códigos necessários para se viver em sociedade. Por exemplo, por causa dele, se você esticar o braço num ponto de ônibus o motorista vai entender que você pretende que ele pare. Se você balançar a sua mão espalmada, todos vão saber que está se despedindo. Mas o senso comum tem um lado bem negativo também, que é o de fazer as pessoas terem ideias e opiniões sem refletir a respeito, apenas reproduzindo a ideologia dominante. Uma das maiores crenças irrefletidas que vingaram nas sociedades capitalistas – e que por isso, as pessoas aceitam como algo natural e verdadeiro – é o mito da meritocracia.

Acreditamos que o sucesso ou o fracasso são consequências diretas do esforço individual, ou da falta dele. Que todas as pessoas bem-sucedidas na vida chegaram lá porque batalharam muito para isso (“mérito”) e que qualquer pessoa, caso trabalhe duro e aceite as dificuldades da vida, também pode chegar lá. Esse é o mito que fundou o capitalismo dos Estados Unidos, o “sonho americano”, mas que hoje em dia, já não chega mais a iludir ninguém – os movimentos sociais nunca foram tantos naquele país, justamente contestando essa falsa ideologia. Acho que os brasileiros estão começando a cair na real também, e por isso vários protestos nas ruas, e várias reações violentas dos privilegiados que tem suas posições ameaçadas.

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O mito da meritocracia foi decisivamente desvendado pelo professor Jessé Souza no seu altamente recomendado livro “A Ralé Brasileira – quem é e como vive”*. Ao focar o sucesso ou o fracasso no indivíduo, a sociedade brasileira comete a injustiça de ocultar as origens de classe que determinam, em grande medida, o quanto de facilidade e o quanto de dificuldade está reservado para nós. Mas não devemos pensar – e eis aqui a maior contribuição do autor para a discussão – que quando nos referimos a classe, estamos querendo dizer determinada faixa econômica. Os filhos das classes-médias têm maior taxa de sucesso não porque seus pais transmitem algum tipo de herança financeira, um bem material ou uma empresa; mais do que isso: eles têm sucesso porque os pais transmitem valores imateriais e exemplos de conduta social que são valorizados pela sociedade. Por exemplo, como falar em público, como se comportar num clube social, como se vestir bem, evitar sexualidade precoce, ter algum grau de cultura... Esses valores são difíceis de serem percebidos pela sociedade como determinantes para o indivíduo, porque além de serem imateriais, são transmitidos dentro de casa, com exemplos e o convívio diário. Isso é mais importante do que a herança material, e é o que determina o sucesso ou o fracasso, em grande medida, das pessoas em suas vidas. Nesse caso, a renda econômica que advém do  sucesso é a consequência, não a causa da desigualdade.

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Ao focar o indivíduo e “esquecer” que a origem social determina o sucesso ou o fracasso, a sociedade ainda pode se auto-eximir de culpa pelo abandono de uma parcela enorme da população brasileira, que não possui essas ferramentas culturais adequadas para o sucesso. Afinal, se o mérito é individual, então os fracassados são os culpados pelo seu próprio fracasso, e não há nada que os governos poderiam ou deveriam fazer para corrigir isso. A pessoa escolheu o caminho errado, seja por preguiça, incompetência ou falha de caráter, e ajudá-la seria incentivar o comodismo... (Quantas vezes já ouvimos isso? É a voz do senso comum atuando completamente)

Mito da brasilidade: ocultar as diferenças sob um falso senso de igualdade

 RICOS-E-POBRES

Para piorar ainda mais o nosso modelo no Brasil, o mito da brasilidade transmite duas ideias prejudiciais a qualquer tipo de mudança desse quadro: a de que somos todos iguais, brasileiros felizes e abençoados – o que ajuda a ocultar as enormes e indecentes desigualdades sociais – e outra, talvez bem pior: o “horror ao conflito”. Afinal, somos um povo pacato e cordial, cristãos que pregam o amor e a ordem, nada de reivindicações, porque isso não é coisa nossa... Quem quer que ouse lutar contra o Establishment, é logo tachado de desordeiro, terrorista, “vândalo”, ou algo que o valha (e tome senso comum). E isso teve como resultado séculos de conformismo e a ocultação de todos os conflitos sociais, seja de classe, de gênero ou de raça.

pensadorNão, não somos todos iguais, como quer fazer crer o mito da brasilidade. Nesse país, há privilegiados e abandonados, há poucos com muito e muitos com pouco. E não foi o mérito individual que determinou quem tem e quem não tem acesso aos bens culturais e materiais do país. Esse é um mito dos mais perversos e que precisa ser desconstruído o mais rápido possível, se quisermos atacar na raiz os verdadeiros problemas históricos do país. Poderíamos todos começar não dando crédito a tudo o que escutamos por aí. Existem interesses ocultos em cada discurso, e temos que aprender a desvendá-los. Uma reflexão antes de emitir opinião não faz mal a ninguém.

* SOUZA, Jessé. A Ralé Brasileira – quem é e como vive. Ed. UFMG. Belo Horizonte, 2011