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Os mitos da meritocracia e da brasilidade a serviço dos privilégios no Brasil

senso comumO senso comum é uma faca de dois gumes. Ele é importante no nosso dia a dia, para criar os códigos necessários para se viver em sociedade. Por exemplo, por causa dele, se você esticar o braço num ponto de ônibus o motorista vai entender que você pretende que ele pare. Se você balançar a sua mão espalmada, todos vão saber que está se despedindo. Mas o senso comum tem um lado bem negativo também, que é o de fazer as pessoas terem ideias e opiniões sem refletir a respeito, apenas reproduzindo a ideologia dominante. Uma das maiores crenças irrefletidas que vingaram nas sociedades capitalistas – e que por isso, as pessoas aceitam como algo natural e verdadeiro – é o mito da meritocracia.

Acreditamos que o sucesso ou o fracasso são consequências diretas do esforço individual, ou da falta dele. Que todas as pessoas bem-sucedidas na vida chegaram lá porque batalharam muito para isso (“mérito”) e que qualquer pessoa, caso trabalhe duro e aceite as dificuldades da vida, também pode chegar lá. Esse é o mito que fundou o capitalismo dos Estados Unidos, o “sonho americano”, mas que hoje em dia, já não chega mais a iludir ninguém – os movimentos sociais nunca foram tantos naquele país, justamente contestando essa falsa ideologia. Acho que os brasileiros estão começando a cair na real também, e por isso vários protestos nas ruas, e várias reações violentas dos privilegiados que tem suas posições ameaçadas.

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O mito da meritocracia foi decisivamente desvendado pelo professor Jessé Souza no seu altamente recomendado livro “A Ralé Brasileira – quem é e como vive”*. Ao focar o sucesso ou o fracasso no indivíduo, a sociedade brasileira comete a injustiça de ocultar as origens de classe que determinam, em grande medida, o quanto de facilidade e o quanto de dificuldade está reservado para nós. Mas não devemos pensar – e eis aqui a maior contribuição do autor para a discussão – que quando nos referimos a classe, estamos querendo dizer determinada faixa econômica. Os filhos das classes-médias têm maior taxa de sucesso não porque seus pais transmitem algum tipo de herança financeira, um bem material ou uma empresa; mais do que isso: eles têm sucesso porque os pais transmitem valores imateriais e exemplos de conduta social que são valorizados pela sociedade. Por exemplo, como falar em público, como se comportar num clube social, como se vestir bem, evitar sexualidade precoce, ter algum grau de cultura... Esses valores são difíceis de serem percebidos pela sociedade como determinantes para o indivíduo, porque além de serem imateriais, são transmitidos dentro de casa, com exemplos e o convívio diário. Isso é mais importante do que a herança material, e é o que determina o sucesso ou o fracasso, em grande medida, das pessoas em suas vidas. Nesse caso, a renda econômica que advém do  sucesso é a consequência, não a causa da desigualdade.

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Ao focar o indivíduo e “esquecer” que a origem social determina o sucesso ou o fracasso, a sociedade ainda pode se auto-eximir de culpa pelo abandono de uma parcela enorme da população brasileira, que não possui essas ferramentas culturais adequadas para o sucesso. Afinal, se o mérito é individual, então os fracassados são os culpados pelo seu próprio fracasso, e não há nada que os governos poderiam ou deveriam fazer para corrigir isso. A pessoa escolheu o caminho errado, seja por preguiça, incompetência ou falha de caráter, e ajudá-la seria incentivar o comodismo... (Quantas vezes já ouvimos isso? É a voz do senso comum atuando completamente)

Mito da brasilidade: ocultar as diferenças sob um falso senso de igualdade

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Para piorar ainda mais o nosso modelo no Brasil, o mito da brasilidade transmite duas ideias prejudiciais a qualquer tipo de mudança desse quadro: a de que somos todos iguais, brasileiros felizes e abençoados – o que ajuda a ocultar as enormes e indecentes desigualdades sociais – e outra, talvez bem pior: o “horror ao conflito”. Afinal, somos um povo pacato e cordial, cristãos que pregam o amor e a ordem, nada de reivindicações, porque isso não é coisa nossa... Quem quer que ouse lutar contra o Establishment, é logo tachado de desordeiro, terrorista, “vândalo”, ou algo que o valha (e tome senso comum). E isso teve como resultado séculos de conformismo e a ocultação de todos os conflitos sociais, seja de classe, de gênero ou de raça.

pensadorNão, não somos todos iguais, como quer fazer crer o mito da brasilidade. Nesse país, há privilegiados e abandonados, há poucos com muito e muitos com pouco. E não foi o mérito individual que determinou quem tem e quem não tem acesso aos bens culturais e materiais do país. Esse é um mito dos mais perversos e que precisa ser desconstruído o mais rápido possível, se quisermos atacar na raiz os verdadeiros problemas históricos do país. Poderíamos todos começar não dando crédito a tudo o que escutamos por aí. Existem interesses ocultos em cada discurso, e temos que aprender a desvendá-los. Uma reflexão antes de emitir opinião não faz mal a ninguém.

* SOUZA, Jessé. A Ralé Brasileira – quem é e como vive. Ed. UFMG. Belo Horizonte, 2011

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Almir Ferreira:
Almir Ferreira Historiador e professor formado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), carioca, solteiro, rubro-negro e baterista, defende os ideais socialistas, é a favor da descriminalização das drogas, dos direitos das minorias, da desmilitarização das polícias e defensor dos Direitos Humanos

10 comentários:

  1. Eu diria até mais, que uma reflexão antes de emitir uma opinião é tão saudável quanto assumir o erro de uma ideia mal pensada. Repetiu um senso comum? Nunca é tarde para corrigir, mudar de ideia, reconstruir sua opinião. Felizmente o que pensamos não se inscreve numa placa de diamante. A questão da meritocracia ainda está muito enraizada em nossa sociedade, mas, aos poucos, percebo que cada vez fica mais claro ao povo que algo está faltando, que o problema não é apenas esforço pessoal, afinal, eles trabalham, trabalham e trabalham... E trabalham. Está ficando difícil para as classes dominantes sustentar essa ideia sem poréns.

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    1. Exatamente. A sustentação desses falsos mitos tem ficado cada vez mais difícil, não só no Brasil, mas em todo o mundo. Basta ver os inúmeros protestos que vem ocorrendo no mundo nos últimos 20 anos. Tudo isso é nada mais, nada menos, que o fracasso dos mitos como agente da conformidade de classes. E quando os mitos falham, aí vem a bala de borracha e o spray de pimenta.

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  2. Excelente texto, falar muitas coisas que devemos presta atenção, porem não prestamos, mais quem é contra a maré , sempre é taxado de louco ou coisas piores, um exemplo disso é filosofia, quando alguém falar que pretende fazer filosofia para ter o verdadeiro conhecimento vem logo pessoas taxas como malucos, que não sabem fazer nada ou não querendo que acha que e vagabundagem, tem até uma charge disso no livro se eu não me engano chamado "Filosofando" que inclusive eu leio, adoro essa matéria, amo a primeira vista!

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    1. Isso mesmo Matheuslaville.
      Quantas vezes escutamos as pessoas perguntarem: "Filosofia? Pra quê serve isso?". Infelizmente a nossa cultura economicista só dá valor aos números, às tabelas, aos cálculos, e com isso deixamos de pensar, de raciocinar sobre a nossa vida e a nossa sociedade. Essa é uma das funções mais importantes da Filosofia -- e não por acaso, ela foi limada das escolas no período da ditadura militar.
      Grande abraço.

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  3. É a mentira contada mil vezes que se tornou verdade... não que o sucesso também esteja ligado ao esforço da pessoa e o fracasso no comodismo dela, existe esse lado na moeda, mas muitas pessoas acabam sendo iludidas no seu dia a dia, que acham que já estão realizados na vida ou não podem conseguir mais nada...

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    1. É verdade Guilherme, você chamou a atenção para um detalhe importante. Existem realmente pessoas que conseguem um relativo sucesso com seus trabalhos e seus esforços, mas por outro lado, não podemos esquecer que muitas das barreiras sociais que essa pessoa teve que enfrentar (se ela veio de baixo) não existiram para outras pessoas privilegiadas, por conta da classe social em que ela nasceu. Isso determina os contatos, as amizades, as redes de influência que ela pode participar, e com isso as portas vão se abrindo mais facilmente para ela do que para os outros.
      Essas coisas são difíceis de perceber, mas estão aí bem diante de nós.
      Grande abraço.

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  4. Maravilhoso texto! Vejo muitas pessoas que não são ricas, mas que tem uma vida razoável, uma situação cômoda, portanto, não querem mexer no que relativamente está bom, assim vão caminhando e trabalhando feito escravos.Ou seja perde-se tempo trabalhando para ter o básico, enquanto os poderosos deitam e rolam sem fazer nada. É preciso sair às ruas e protestar, para que essas pessoas entendam o que acontece na sociedade.

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    1. É exatamente essa a questão Marília, parece que as pessoas se conformam com o pouco que tem e acham que isso é o suficiente. Mal elas sabem que existem pessoas com uma condição de vida mil vezes melhor, sem que tenham feito por merecer isso.
      Grande abraço e obrigado.

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  5. Excelente! Blog eficiente, informativo, parabéns mesmo!

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